Mônica Benevides sabe a importância da valorização da mulher, porque viu a pior maneira da própria mãe ser tratada na frente dos filhos. Mônica foi escolhida como personagem do Mês das Mulheres para o projeto Nossas Histórias, desenvolvido pelo hospital

A primeira filha de cinco, Mônica Lelis Benevides, de 50 anos, não sabe quantas vezes viu o pai alcoólatra agredir a mãe. Aos seis anos, ela chegou a presenciar quando o homem jogou um facão em uma das pernas da companheira, que precisou ser hospitalizada. Mônica ajudou na criação dos irmãos mais novos, que quando não tinham o que comer — e isso não foi só uma vez ou outra —, iam procurar frutas na mata para matar a fome. Mônica é psicóloga do Hospital Estadual de Urgências de Goiânia Dr. Valdomiro Cruz (Hugo), e mesmo com um passado de dor, trata a todos com amor.

Nascida na periferia de Aparecida de Goiânia, ela viveu uma infância de sofrimento. A relação que sempre teve com o pai, foi norteada pelo respeito e pelo medo. O homem, que tinha como profissão pedreiro cisterneiro, não trabalhava regularmente, porque o vício no álcool o impedia cumprir compromissos. A agressividade era sempre aflorada por qualquer coisa e quem pagava a culpa era a companheira, mãe dos cinco filhos. “Não conto as vezes que vi ele bater na minha mãe na nossa frente. São cenas que nunca consegui apagar. Eu me sentia com medo e desamparada.”

Mônica completa: “Minha mãe trabalhava de faxineira, para outras famílias, mas o que ela ganhava, mal dava para nos sustentar, já que o meu pai não colocava dinheiro em casa. O que ele recebia, gastava em bebida. A gente comia frutas, no mato, para não passar fome”, relembra. Ela conta que um dos piores momentos da vida foi ver a mãe levar um golpe de facão do pai. “Ele jogou um facão na perna dela, que sangrou muito e precisou ir para o Hospital. Ela estava grávida de oito meses e com 13 dias o neném morreu.”

“Mas essa não foi a única vez, ele já nos colocou na parede, enfileirados e apontou uma arma dizendo que nos mataria. Mas algo muito superior aconteceu, que ele atirou para o alto e desistiu”, conta.

A MUDANÇA

A única filha que conseguiu estudar até o Ensino Médio, Mônica chegou a cursar o extinto Magistério. E foi aí que a paixão pelo ser humano começou. Ela queria fazer psicologia, mas a baixa autoestima a impedia de seguir adiante. “Eu me achava feia, pobre e burra, por nunca ter sido incentivada”. Mas o incentivo veio do marido, o enfermeiro Ildson Martins Lelis.

“Ele me perguntou o que eu queria estudar, e eu respondi. Aí, me disse para tentar, mas eu enrolei. Quando vi, no dia do pagamento do salário dele, me chegou chamando para a inscrição do vestibular. Fiz e fui aprovada em primeiro lugar na segunda chamada da PUC-GO”, relembra Mônica.

E ela não parou por aí: Cursou Enfermagem logo em seguida. Mas nunca havia atuado na profissão, até que uma coisa aconteceu que daria sentido a ela ter feito o curso. O retorno do pai à vida dela. “Ele ficou renal crônico e foi só então que entendi o motivo de Deus permitir que eu tivesse o curso de Enfermagem, para poder cuidar dele. Meu pai se tornou meu amigo e tivemos uma convivência muito boa até o fim da vida dele. Cuidei dele com toda a técnica de uma enfermeira e consegui dar todo o afeto que a psicologia me ensinou e, além do mais, pude perceber o amor de pai para filha que ele tinha e dar o afeto, também”.

Mônica sofreu anos com endometriose, e o sonho da maternidade só foi possível através da adoção. “Minhas duas jóias são meus filhos”, diz. E como tudo que já aconteceu para ela, a chegada de Alessandra Benevides Lelis, hoje com 21 anos, e Samuel Benevides Lelis, que está com 12, não foi tranquila. Alessandra estava em um abrigo no interior do Acre, e não teria como permanecer no abrigo, que estava sob ameaça de ser fechado. Mônica foi até a cidade, sem certeza alguma, e só voltou com a filha nos braços. O menino, estava em uma boca de fumo em Aparecida de Goiânia, abandonado; Mônica e o marido tiveram de arriscar a própria vida para conseguir fazer o resgate: “minha família é meu tudo”, completa.

Mônica tem um jeito diferente de tratar os pacientes do Hugo. Com um violão, com uma caixinha de som, ou com uma letra de música na mão, ela passa de leito em leito, ou somente nos corredores, e deixa uma mensagem através de música. “Eu dou oportunidade de que aquela canção quebre o gelo entre uma pessoa sofrida e alguém para ouvir, e dar alívio àquela situação. Eu acolho as pessoas nos momentos mais difíceis delas. São pessoas que passaram por tragédias, situações complicadas, que perderam alguém, então, a minha missão é dar amor”, resume.

Mônica Benevides é Hugo. Ela faz parte da Nossa História.